Uso político do passado na disciplina de História, no contexto atual da educação básica brasileira: TCC de Licenciatura Em História Aprovado
USO POLÍTICO DO PASSADO NA DISCIPLINA
DE HISTÓRIA, NO CONTEXTO ATUAL DA EDUCAÇÃO BÁSICA BRASILEIRA
Alexandre
Braga
RESUMO: As discussões
em torno da educação permeiam a sociedade civil e o cenário político brasileiro,
além de serem motivo de grandes polêmicas. No presente artigo, buscou-se
analisar o seu uso político no Brasil, ao longo da história, até os dias atuais,
com ênfase no ensino da disciplina na educação básica. A partir de um conceito
mais específico, de uso político do passado – abordado também pelo historiador
Fernando Nicolazzi –, foram elucidadas algumas questões pertinentes, que
extrapolam as academias e os muros escolares, gerando debates aflorados na
mídia e no interior das relações humanas. A fim de melhor compreendê-lo, o tema
foi situado em sua historicidade, na qual se dissecaram todas as suas
implicações políticas, econômicas e culturais. Examinadas as principais linhas de pensamento acerca do assunto,
destacaram-se suas correntes teórico-metodológicas, trazendo uma gama de
opiniões divergentes, de modo a enriquecer o debate, e situá-lo num contexto
mais amplo. Com base nos resultados, foi proposto um refinamento teórico,
pautado em premissas já estabelecidas e consagradas na historiografia,
especialmente a partir da área de atuação motivada pela Escola dos Annales,
que, infelizmente, não estão em seu uso devido.
Palavras-chave: Educação. História. Historicidade.
Historiografia. Ensino.
1. INTRODUÇÃO
As discussões em
torno da educação permeiam a sociedade civil e o cenário político brasileiro,
um tema que gera polêmica e suscita muitas dúvidas. A despeito dessa realidade,
a falta de consenso sobre a práxis educativa é o que a caracteriza, em especial
no ensino de História. Qual a ‘’verdade histórica’’? Que fatos são dignos de
memória? Quais merecem maior destaque e, sobretudo, por quê?
O fazer
historiográfico, certamente, consiste nessas perguntas, feitas sempre no
presente e nas demandas que o cercam. Uma vez que o historiador está
intimamente ligado ao seu objeto de estudo, fica claro que a produção
historiográfica jamais escapa da influência do presente. Diante disso, emergem
em nossa ciência os debates contemporâneos acerca do conceito de uso político
do passado, isto é, instrumentalizar o passado para justificar um determinado status
quo, conforme a definição do historiador Fernando Nicolazzi. Nesse sentido, qual a sua influência no
contexto do ensino de História na realidade atual da educação básica
brasileira?
O objetivo do artigo
é tentar elucidar questões há muito tempo levantadas por pais, alunos,
professores, acadêmicos e membros de diversas outras instâncias sociais. Tem
como premissa a constatação de que o conhecimento guia as ações humanas,
classificando-as como adequadas ou não, a depender dos fins que se deseja
alcançar. Dessa forma, se o objetivo da produção historiográfica, assim como o
de toda ciência, é discutir as questões que a rodeiam, uma revisão de seus
postulados faz-se necessária para identificar os reais problemas, isto é,
compreender os pensamentos que norteiam a forma de se pensar o ensino de
História na educação básica brasileira, a partir de uma revisão de literatura; analisar
o processo de sistematização acadêmica dessa disciplina no cenário da educação
básica brasileira e discutir sobre as configurações atuais do ensino de
História nessa fase.
Este trabalho se trata de uma pesquisa
bibliográfica qualitativa, por meio da consulta em livros, artigos e documentos
disponíveis na internet. Para isso, foram consultados os principais autores que
abordam o tema e suas correntes teórico-metodológicas.
2.
HISTORITIZANDO O ENSINO FORMAL DE HISTÓRIA NO BRASIL... PARA COMPREENDER E
ARGUMENTAR
Aqui analisaremos as
perspectivas dos diferentes movimentos educacionais existentes ao longo dos
anos no Brasil, partindo dos princípios oitocentistas (anos 1800, século XIX),
que guiaram o uso político do passado durante o período imperial e, por
bastante tempo, já na República. Depois, seguiremos para um exame do movimento
escolanovista brasileiro, que abriu portas para o atual modelo de escola. A
disciplina de História, durante esse período, foi marcada pelas mudanças que
sucederam as inovações trazidas, sobretudo, por Marc Bloch e Lucien Febvre, da
Escola dos Annales. A antiga escola historiográfica francesa revolucionou a
forma de pensar o estudo da disciplina, ao ampliar o conceito de fonte e trazer
a noção de tempo e espaço na História, assim como sua relação com a memória. A
partir desse diálogo, será introduzido melhor o conceito de uso político do
passado, abordado também pelo historiador Fernando Nicolazzi.
Podemos dizer que o
trabalho do historiador é o de ser o crítico da memória, uma vez que esta,
apesar de relacionada ao que já aconteceu, é sempre vivida no presente, podendo
ser ressignificada a partir dele, a partir das novas experiências. Da mesma
forma, o historiador, para exercer o seu ofício, precisa se apropriar da
memória, ou melhor, dos registros de memória. Portanto, é somente por
meio de reflexões feitas no presente que ele fará sua interpretação dos fatos
históricos. Essas reflexões não se restringem a ele unicamente, mas às
condições político-institucionais de sua época, aos diversos autores lidos e/ou
de sua preferência, bem como a influência de sua rede de relações. “A memória,
onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procurar salvar o passado
para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória
coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens” (AUGUSTO
SCARPIN, et al, 2018 p. 11, citando de Le Goff.)
Diante disso, é fato sabido
que a educação no Brasil teve sua gênese como parte de um projeto maior, o
projeto colonizador português de conquistas de territórios ultramarinos. Antes
de tudo, é preciso situar os primórdios do que mais tarde se constituiria como
a nação brasileira em sua historicidade, isto é, no contexto expansionista
europeu, marcado pela ascensão da burguesia comercial, que buscava a ampliação
de mercados consumidores, aliada ao Estado protecionista e interventor, cujo
objetivo era ampliar a arrecadação de impostos, e à Igreja Católica, por meio
de uma das estratégias da contrarreforma. Desse modo, coube aos jesuítas a
primeira tentativa de sistematização do ensino no Brasil, por meio das
diretrizes do Radio Studiorum, que previa a difusão das virtudes
consideradas cristãs. Assim, a importância legada pela Companhia de Jesus não
se restringia ao projeto missionário. Representava a síntese da conciliação
entre o poder do Estado e da Igreja, uma vez que também subsidiava o projeto
colonizador-civilizador português, além da empreitada educacional. Como forma
de submeter as elites da colônia à Metrópole, Portugal proibiu a criação de
universidades no Brasil, de modo que a pedagogia jesuítica servia como uma
forma de preparação humanística para o ingresso nas instituições portuguesas de
Évora e Coimbra. Dava-se ênfase ao ensino de História, sobretudo para endossar
a história da Igreja nos processos de formação dos Estados Nacionais europeus,
criando toda uma genealogia que partia da Antiguidade, destacando inclusive, os
reinos e os profetas bíblicos. O Brasil era pensado a partir de Portugal, como
uma mera extensão deste, parte de um projeto continuado da civilização
ocidental, encabeçado pelas nações europeias.
Pouco a pouco, a
genealogia eclesiástica foi dando lugar à genealogia dos estados-nação e ao
reformismo promovido pelo Iluminismo, considerado mais pragmático e realista,
convergindo com a visão de progresso humano. No Brasil, um dos fatos que
marcaram foi a expulsão da Companhia de Jesus por Marquês de Pombal, com o
objetivo de ampliar a arrecadação de impostos do Estado Português, inaugurando
um sistema de aulas avulsas e com pouca articulação entre si, caracterizada
pela carência de recursos financeiros. Ainda não se constituía como uma disciplina
escolar, dada a sua atual definição, como “o conjunto de conhecimentos
identificados por um título ou rubrica dotado de organização própria para o
estudo escolar, com finalidades específicas aos conteúdos de que trata e formas
próprias para a sua apresentação” (FONSECA, Thais Nívia de Lima, 2013, on-line,
n.p.).
Ao longo do século
XIX, a História surgiu como disciplina independente, academicamente orientada,
emergindo de seu caráter meramente memorialístico, narrativo, filosófico e
providencialista. Uma época de grande prestígio por parte das ciências
naturais, a quem era atribuído todo o avanço de modernização promovida pela
indústria. A História herdara muitos de seus métodos e procedimentos, como
forma de se legitimar.
Naquele contexto,
vigorava a centralização política e, com isso, a formação de diversos
estados-nação e manutenção do status quo. Não por acaso, a
historiografia atingiu relevância institucional em diversos países, dando
primazia a eventos políticos, sobretudo aqueles que contribuíram para o
nacionalismo e o patriotismo, ao favorecer uma certa centralização política.
No Brasil, não
ocorreu diferente. A historiografia produzida nos primórdios de sua
independência de Portugal fora instrumentalizada para suprimir certas tensões,
revoltas internas e movimentos secessionistas. A iniciativa surgiu com a
criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), tendo as ideias
do alemão Von Martius como princípios norteadores, pautadas na confluência das
“três raças”: a europeia, a africana e a indígena, naturalizando o domínio e a
supremacia da primeira sobre as outras.
Assim explicita
Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, autor de História
Geral do Brasil, em sua dedicatória a Dom Pedro II:
Por segunda vez chego aos pés do Throno de Vossa
Magestade Imperial com o fructo de minhas locubraçôes acerca da Historia
Pátria, no periodo de mais de três séculos anterior á era da independência e do
império.
Se a voz da consciência nâo me accusou até hoje o
minimo escrúpulo a respeito da imparcialidade com que tratei sempre de
averiguar e de narrar os fados, nâo posso deixar de reconhecer que esta nova
publicação leva grandes vantagens á precedente; assim pela maior cópia de
factos apurados, como pela mais exacta apreciação de outros aclarados pelo
apparecimento de novos documentos ou por mais accurados exames.
A Vossa Magestade Imperial, Senhor, Primeiro
Estadista brazileiro que reconheceu e sanccionou a importância do estudo da
Historia da Nação, tanto para contribuir ao maior esplendor delia entre os
estranhos, como para ministrar dados aproveitáveis na administração do Estado,
e também para fortificar os vínculos da unidade nacional, e aviventar e exaltar
o patriotismo, e ennobrecer o espirito público, augmentando a fé no futuro e na
glória das lettras, — a Vossa Magestade Imperial, que, com taes miras, Susteve
e Levantou mui alto o Instituto Histórico Brazileiro, lnstallando-o no próprio
Palácio Imperial, Assistindo ás suas sessões ordinárias, Honrando aos seus sócios,
e Conferindo-me a mim, filho do povo, o necessário alento para, entre nâo
pequenas contrariedades de todo o gênero, proseguir perseverante em taes
estudos, a que uma innata vocação me conduzira, desvaneço-me em proclamar que
devo o ter conseguido terminar esta obra; preâmbulo da gloriosa HISTORIA DA
INDEPENDÊNCIA que nâo tardarei a publicar. A acceitaçâo por Vossa Magestade
Imperial desta dedicatória e os decretos de 14 de agosto de 1872 e 16 de maio
de 1874, associando-me ao ponto de partida da história da civilisaçdo do
Brazil, sâo actos de Sua Imperial Magnanimidade, que por si sós accusarâo aos
leitores futuros o reinado fecundo que produziu a obra, bem que ainda com
defeitos, filha de aturado trabalho de uma vida sempre votada ao estudo e á
investigação da verdade.
Que Deus siga abençoando o reinado de Vossa
Magestade Imperial, para maior Glória Sua e felicidade da Pátria, sâo os votos
constantes que faz,
SENHOR, De Vossa Magestade Imperial, o muito
reverente e leal subdito Visconde de Porto-Seguro.
A citação deixa muito
claro como a educação era encarada por parte dos detentores do poder: uma
tentativa de integrar as identidades coletivistas a uma pátria comum, que
atendesse aos interesses do Estado Monárquico.
A História se
constituiu como disciplina escolar quando passou a integrar o currículo do
Colégio Pedro II, alçado pelo Poder Público como a “escola-modelo” do período,
impondo seus currículos e servindo de inspiração para as instituições de ensino
básico do país.
Tudo isso era parte
do projeto político imperial de centralização do poder, uma forma de educar a
elite dirigente para conduzir os rumos da pátria.
A proposta curricular
de História do Colégio Pedro II incluía, ao longo dos anos: História Sagrada e
Doutrina Cristã; Geografia e História Antiga; História Romana, Geografia e
História da Idade Média, História Moderna e Contemporânea; enquanto, nos anos
finais da escola secundária, História da Pátria, Chronografia e História
do Brasil. Mudanças aconteceram a partir de 1882, com emergência de termos mais
abrangentes, como História Universal para designar a historiografia pautada na
linha do tempo tradicional, centrada na história europeia, e Chronografia e História do Brasil para
a História da Pátria, também dotada de uma perspectiva eurocêntrica.
Palco de disputas
entre as memórias nacionais, havia uma preocupação, por meio da escola, com a
formação de um cidadão adequado ao sistema social e econômico transformado pelo
capitalismo de Estado. Foi nesse momento que a disciplina fluiu das universidades
para outras instâncias sociais, sendo adaptada à compressão de seu
público-alvo. Mas não se trata meramente de uma reprodução do saber científico
e universitário, pois, conforme explicita Jean-Claude Forquin, ocorre a chamada
“transposição didática”, na qual a cultura escolar também seleciona, reapropria
e ressignifica esse mesmo conteúdo.
Com o advento da
República, intensificou-se a questão da relevância da história nacional, do
ponto de vista do pragmatismo da política, nos currículos escolares, culminando
na criação da disciplina Instrução Moral e Cívica, cujo objetivo era reforçar o
sentimento patriótico da população, agora com viés fortemente arcado pelo
republicanismo, pelas ideias de civilização e progresso vigentes na época. A
figura de Tiradentes foi bastante utilizada, alçando-o como herói da república,
e o contexto de sua morte frequentemente comparado ao sacrifício do indivíduo
ao bem comum da nação, que seria análogo ao sacrifício de Jesus Cristo na cruz.
Um claro exemplo de uso político do passado bem orquestrado, cuja base está em
determinada forma de apropriação da memória.
Com o fim da
República Velha, no âmbito das políticas educacionais, assistiu-se à publicação
da reforma educacional Francisco Campos de 1931, nitidamente influenciada pelas
ideias do movimento escolanovista brasileiro, que estabeleceu um diálogo com
outras ciências, como a Psicologia e a Sociologia. Mais de uma década depois,
após a instauração do Estado Novo, destacou-se a nova Lei Orgânica do Ensino
Secundário, popularmente chamada de reforma Gustavo Capema, que alçou a
História como uma disciplina escolar independente e conferiu ao professor uma
certa autonomia didática. Entretanto, não bastou para que triunfasse a
influência da perspectiva tradicional da História, centrada nos eventos
políticos e dos feitos gloriosos dos grandes vultos da Pátria, como a figura de
Tiradentes, bastante explorada, sobretudo, durante a Era Vargas, com destaque
para as festas cívicas.
Além disso, apesar do
aparente caráter inovador dos defensores da Escola Nova, em seu manifesto
pioneiro de 1932, assinada por diversos intelectuais de ampla relevância para o
pensamento nacional, entre eles a escritora e educadora Cecília Meireles, o
fortalecimento da democracia (leia-se, das instituições vigentes) ainda aparece
explicitamente como um foco, além da inspiração confessa na reforma educacional
que mobilizou a Prússia no século XIX. Em 1916, Enerst Troeltsch, citado por
Murray Rothbard, caracterizou a Alemanha como sendo essencialmente uma nação
militarista, grandemente devotada ao exército e à monarquia. Quanto à educação,
declarou:
A organização escolar é paralela ao exército, a escola
pública corresponde ao exército popular. Este último, assim como o primeiro,
foi chamado para estar presente durante o primeiro levante do futuro estado
alemão, enquanto o país gemia sob o jugo de Napoleão, ele aconselhou a infusão
da cultura alemã nas massas, através da criação de escolas primárias nacionais
a partir das diretrizes deixadas por Pestalozzi. O programa foi efetivamente
adotado por diferentes estados alemães e desenvolvidos durante o último século,
num sistema de ensino geral. (...) Este se tornou um real fator de formação do
espírito alemão. Há neste sistema escolar um elemento Democrático e Estatal-Socialista
como Fichte pretendia.
Herdeiro, sobretudo,
do Iluminismo francês e do sistema educacional empreendido pelo Império
Prussiano, o escolanovismo foi um movimento que se espalhou pela Europa e pelos
Estados Unidos ao longo dos séculos XIX e XX, chegando ao Brasil por intermédio
de Rui Barbosa. Entre suas pautas, estava a defesa de uma educação pública,
universal e compulsória, encarada como uma forma de resolver as tensões sociais
existentes. Em outras palavras, buscava superar uma educação puramente
elitista, ao oferecer uma mesma educação para todos, independentemente de
gênero, classe e raça. Entretanto, é necessário concordar com pressupostos
adotados pela sociologia dos saberes, que considera a escola como produto de
uma seleção cultural, correspondendo também a estruturas e valores
determinados. De acordo com André Chervel, o estudo do conteúdo efetivamente
dispensado dos programas escolares é, decididamente, uma tarefa do historiador
das disciplinas escolares. Quem determina essa seleção cultural? Uma vez que a
educação se tornou uma pauta política amplamente difundida, atendendo a
diversos interesses conflitantes e agendas específicas, fica claro que o
controle sobre ela garante, também, a primazia da História e das memórias
oficiais, as chamadas narrativas hegemônicas. Uniformizar a educação cresce uma
tendência para uniformizar também a cultura, silenciando vozes discordantes ou
até mesmo causando uma tendência rumo ao desaparecimento de diversas línguas
minoritárias, cuja preservação parece ser do interesse de várias instâncias
sociais, incluindo a política, como o que ocorre hoje com as línguas indígenas.
Uma opção que
aparentava servir de alternativa foi a criação de propostas curriculares que
contemplassem as especificidades regionais. Nas décadas de 1950 e 1960, a
educação ficou a cargo dos estados e municípios, que, apesar de explicitarem o
viés crítico, não trouxeram grandes mudanças nesse quesito.
A influência
norte-americana foi marcante, e se revelou por meio de uma maior ênfase no
fortalecimento da História da América, em especial da história dos Estados
Unidos. Destaca-se, também, a influência da Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como incentivadora da produção de
materiais didáticos que exportassem suas ideias relacionadas ao mundo e à
sociedade em geral.
O regime militar,
instalado em 1964, só aprofundou as características já enraizadas no ensino
formal de História. Foram assinados acordos educacionais entre Brasil e Estados
Unidos, e a disciplina foi condensada em Estudos Sociais, ao lado da Geografia,
além de ter havido a consolidação das já existentes Educação Moral e Cívica e
Organização Social e Política Brasileira, agora obrigatórias.
Novas propostas
metodológicas e programas de ensino de História na Educação Básica só se
desenvolveram, com mais afinco, ao fim do regime. Todavia, os embates e
entraves do governo para elaboração de diretrizes e ensino possibilitaram que
professores desenvolvessem seus próprios currículos, que, muitas das vezes,
eram copiados de propostas curriculares já existentes. Mas os programas de 1986
– no cômputo geral – apesar de terem a proposta de serem inovadores, apenas substituíram
a narrativa teleológica, maniqueísta e mecanicista positivista para uma outra,
que encontrou clara fundamentação no marxismo, como bem apontou o historiador
Paulo Miceli, citado por José Petrúcio Farias Júnior. Uma clara influência do
teor crítico responsável por ter enfraquecido as instituições do regime
anterior, que, em grande parte, era de matriz esquerdista.
A década de 1990
assistiu a uma série de reformas do ensino, bastante influenciadas por
desdobramentos dos debates historiográficos, nas universidades brasileiras.
Ganharam espaços abordagens originadas da Nova História, de matriz francesa, e
da História Social Inglesa, que trouxeram o estudo das mentalidades ao longo do
tempo, assim como do cotidiano, sendo introduzidas com a Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional. Com um caráter fortemente centralizador,
atribuiu-se à União o papel de formular diretrizes não só para a educação
básica, mas também para o ensino superior, em conjunto com estados e
municípios. Argumentou-se que a tentativa de os professores elaborarem seus
próprios currículos havia se mostrado ineficiente e que, portanto, era
necessário a intervenção do Estado no setor. Iniciativas parecidas com essa se
deram em 2018, com a criação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular),
direcionada a todo o ensino básico.
Principalmente nos dias de hoje, é
preponderante a influência da UNESCO na formulação de políticas de educação,
por meio dos acordos entre os países signatários da Organização das Nações
Unidas (ONU), que atendem a interesses de ongs, organizações filantrópicas,
empresários, banqueiros, empreiteiros e variados grupos políticos, que
reivindicam uma interpretação dos fatos históricos que seja condizente com suas
agendas. Um exemplo disso é a lei Nº 10639/03, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação,
incluindo no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da presença
da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Africana", uma
antiga reivindicação do movimento negro, fortemente influenciado por teorias
pós-colonialistas.
2.1 METODOLOGIA
Este trabalho buscou
os principais autores que abordam o tema apresentado, trazendo uma gama de
diferentes visões, ancorado, em grande parte, em análises teórico-metodológicas
da Escola dos Annales e da Nova História, com destaque para Marc Bloch e sua obra-prima
Apologia da História.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Se antes as fontes se
restringiam aos documentos escritos e oficiais, ligados a instituições de poder
como o Estado e a Igreja, a noção, com a releitura de novas escolas
historiográficas, ampliou-se para todo vestígio deixado pelo ser humano ao
longo do tempo. “Já o historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja
carne humana, sabe que ali está sua caça” (Bloch, 2002, on-line, n.p.).
Mas será mesmo que a
barreira do oficialismo foi de fato rompida? Ainda há uma tendência notável em
se considerar a primazia das fontes oficiais sobre as outras. Exemplo claro
disso é a LEI Nº 14.038, DE 17 DE AGOSTO DE 2020, que regulamenta a profissão
do historiador, como podemos ver abaixo:
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu
promulgo, nos termos do parágrafo 5º do art. 66 da Constituição Federal, a
seguinte Lei:
Art.
1º Esta Lei regulamenta a profissão de Historiador, estabelece os
requisitos para o exercício da atividade profissional e determina o registro em
órgão competente.
Art.
2º É livre o exercício da atividade de historiador, desde que atendidas
as qualificações e exigências estabelecidas nesta Lei.
Art.
3º O exercício da profissão de Historiador, em todo o território
nacional, é assegurado aos:
I - portadores de diploma
de curso superior em História, expedido por instituição regular de ensino;
II - portadores de
diploma de curso superior em História, expedido por instituição estrangeira e
revalidado no Brasil, de acordo com a legislação;
III - portadores de
diploma de mestrado ou doutorado em História, expedido por instituição regular
de ensino ou por instituição estrangeira e revalidado no Brasil, de acordo com
a legislação;
IV - portadores de
diploma de mestrado ou doutorado obtido em programa de pós-graduação
reconhecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -
CAPES que tenha linha de pesquisa dedicada à História;
V - profissionais
diplomados em outras áreas que tenham exercido, comprovadamente, há mais de 5
(cinco) anos, a profissão de Historiador, a contar da data da promulgação desta
Lei.
Art.
4º São atribuições dos historiadores:
I - magistério da
disciplina de História nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio,
desde que seja cumprida a exigência da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 - Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB quanto à
obrigatoriedade da licenciatura;
II - organização de
informações para publicações, exposições e eventos sobre temas de História;
III - planejamento,
organização, implantação e direção de serviços de pesquisa histórica;
IV - assessoramento,
organização, implantação e direção de serviços de documentação e informação
histórica;
V - assessoramento
voltado à avaliação e seleção de documentos para fins de preservação;
VI - elaboração de pareceres,
relatórios, planos, projetos, laudos e trabalhos sobre temas históricos.
Art.
5º Para o provimento e exercício de cargos, funções ou empregos de
historiador, é obrigatória a comprovação de registro profissional nos termos do
art. 7º desta Lei.
Art.
6º As entidades que prestam serviços em História manterão, em seu quadro
de pessoal ou em regime de contrato para prestação de serviços, historiadores
legalmente habilitados.
Art. 7º
O exercício da profissão de Historiador requer prévio registro perante a
autoridade trabalhista competente.
Art.
8º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 17 de agosto de
2020; 199º da Independência e 132º da República.
JAIR
MESSIAS BOLSONARO
(BRASIL, 2020, on-line, n.p.)
Como visto acima, a lei estabelece uma
série de requisitos para a profissão do historiador. Entre elas, podemos
destacar a espinha dorsal, que é a obrigação de um diploma universitário, sob
os critérios exclusivos do Estado, via certificado do Ministério da Educação
(MEC). Primeiramente, reduzir a produção do conhecimento científico às
universidades é cair em profundo reducionismo, visto que a própria ideia de
universidade é produto de debates que antecedem a ela. Além disso, a lei
favorece uma narrativa e uma história oficial, considerando que somente as
universidades validadas pelo Estado podem emitir diploma, tendo este, também,
conforme a lei, o poder unilateral de revogação.
Outra evidência da bandeira do
oficialismo impregnada na cultura aconteceu durante uma entrevista à candidata
Marina Silva na Rede Globo, durante as eleições presidenciais de 2018.
Perguntada por uma das jornalistas sobre a pauta do aborto, Marina questionou a
veracidade das estatísticas relacionadas a ela. Em resposta, a jornalista
argumentou que são dados oficiais, o que demonstra claramente como essa visão
ainda é preponderante para a credibilidade pública. De fato, em diversas
propagandas na mídia, podemos observar constantemente que uma fonte tida como
oficial é, praticamente, um atestado de veracidade. Isso inclui estatísticas,
cuja metodologia dificilmente sequer é apresentada, ou até mesmo em aspectos do
nosso dia a dia, como informações sobre saúde, política, educação e cultura.
Um exemplo de estatística
propagandeada ocultando sua metodologia foi a que os meios de comunicação
noticiaram alguns anos atrás: “A Suécia é a Capital dos Estupros do
Ocidente.”, “Isso é o resultado das políticas de imigração favoráveis à entrada
de mulçumanos”.
Originada da própria
Suécia e replicada por inúmeros jornais do exterior, certamente agradou e muito
grupos da extrema-direita e críticos das modernas políticas de imigração, no
geral, pois assim puderam provar seus pontos de vista.
Mas, afinal, o que
estava por trás das alarmantes taxas de estupro deste país nórdico, conhecido
pelos baixos índices de criminalidade? Seria mesmo verdade?
Fatos enganosos,
pautado em premissas também enganosas. Até mesmo o referido relatório da ONU
admite que é problemático comparar dados estatísticos de países diferentes, uma
vez que os procedimentos policiais e as definições legais de crimes podem
variar. A Suécia é conhecida por ter um dos conceitos mais abrangentes de
estupro, em suas normas legais, que envolve qualquer ato libidinoso, não tendo
a obrigação de haver conjunção carnal, e ainda exclui a necessidade de provar a
coerção. Além disso, um dos exemplos da distinta metodologia empregada é
utilizado pela socióloga Klara Selin, do Conselho Nacional para a Prevenção de
Crime em Estocolmo, ao G1:
“Assim, por exemplo,
quando uma mulher vai à polícia e diz que seu marido ou namorado a estuprou
quase todo dia no ano passado, a política tem de registrar todos esses delitos,
um por um separadamente. Assim, seriam, nessa hipótese, 300 'casos' de estupro
apenas para uma única vítima. Em outros países, esse mesmo caso é registrado
apenas uma vez - uma vítima, um tipo de crime, um registro'”, explicou.
Mesmo após o
esclarecimento, no entanto, a fake news continua sendo veiculada nos meios de
comunicação, promovendo políticas e discursos enganosos.
Hoje, devido à
velocidade da informação, facilitada pelo avanço da tecnologia, as mentiras (e
as verdades) se propagam com muito mais facilidade. Quando a disseminação em
massa de notícias falsas é provocada, diagnósticos errados são feitos e
soluções não são encontradas. Ações e recursos que poderiam ser destinados para
problemas e soluções reais sofrem de desvios e os problemas sociais se alastram
de forma jamais vista. Tudo isso, agora, em escala global, traz consequências ainda
maiores.
Para mudar essa
realidade, é preciso sair da nossa zona de conforto, pois a busca pelo
conhecimento só se dá de forma ativa. Um pouco de consciência pessoal é
necessário. Entender que os fatos não falam por si e, uma vez que estão
situados dentro de um contexto social que precisa ser analisado por inteiro, o
mais importante é a teoria utilizada para interpretá-los.
Qual a fonte? Qual a
metodologia empregada nessas pesquisas? A que grupo de interesses ela beneficia
e, sobretudo, por quê? A quem interessa o controle daquilo que deve ser
ensinado e daquilo que não deve ser? A quem interessa esse controle de
informações?
É notável o fato de
que o ensino formal de História no Brasil, no contexto da educação básica e
antes dela, sempre teve o objetivo de controle social, e continua até hoje,
apenas variando os objetivos. Ainda se argumenta frequentemente que a escola
deve servir para formar cidadãos. Mas o que seria um cidadão? Vimos que esse
critério, ao longo do tempo, esteve longe de ser uniforme: variou muito.
Contudo, podemos ressaltar algumas permanências. O conceito de “cidadão”, por
exemplo, sempre se caracterizou como uma construção identitária, em alteridade
com o seu oposto: o de não cidadão, ou de não brasileiro. Em segundo lugar, até
hoje mantém-se relacionado à consciência dos direitos e deveres de um indivíduo
para com o Estado, apesar de esses direitos e deveres também terem sofrido de
forte variação. Podemos concluir, com isso, que “o cidadão” em si não existe, é
uma forma de ideal. Um ideal que variou conforme as sociedades e suas épocas e
continua estando sujeito a permanências e rupturas, como toda construção
identitária, muito mais social do que propriamente biológica. Assim resume
Herbert Spencer, citado por Murray Rothbard:
“O que significa dizer que um governo deveria educar o povo?
Por que eles deveriam ser educados? Para que serve a educação? Certamente, para
ajustar o povo para a vida social – para torná-los bons cidadãos. E quem pode
dizer que não são bons cidadãos? O governo: não há outro juiz. E quem pode
dizer como estes bons cidadãos poderão ser feitos? O governo: não há outro
juiz. Daí a proposição é convertida nisto – um governo deve moldar as crianças
em bons cidadãos.... Ele precisa primeiro formar ele mesmo uma concepção
definida de um cidadão padrão; e, tendo feito isso, deve elaborar um sistema de
disciplina calculado como parecer melhor para produzir cidadãos a partir deste
padrão. Este sistema de disciplina é obrigado a ser cumprido até o fim. Pois,
se não cumprido, permite que os homens se tornem diferentes daquilo que se
julgou que deveriam ser e, portanto, falha naquela obrigação que foi ordenada a
cumprir.”
Não é surpresa que o
conceito de cidadão defendido hoje, em larga escala, esteja intrinsecamente
relacionado a agendas políticas em prol de uma democracia global, como
defendidas por órgãos como a ONU e o Fórum Econômico Mundial.
Qual o tipo de cidadão
que se discute na sociedade de hoje? E, sobretudo, por quê? A quem interessa?
Quais são as permanências, rupturas e seus motivos? Por que se optou por
determinada construção identitária? Por que a exclusão de outras identidades
possíveis? Essas são indagações que devem ser respondidas por historiadores, no
exercício de seu ofício.
Fica claro que, por mais que tenha
havido uma série de inovações na produção historiográfica contemporânea, ela,
em grande parte, ainda herda muitas das concepções e visões, muitas vezes
convenientes, da chamada história tradicional. Considerando que o
objetivo da produção historiográfica, assim como o de toda ciência, é discutir
as questões que a rodeiam, uma análise de seus postulados e suas implicações
faz-se necessária para aprimorar, cada vez mais, a interpretação dos registros
de memória, que, não só aliada a uma boa teoria e um bom método, como também
fiel a eles, torna-se finalmente palatável, ganhando corpo e forma.
REFERÊNCIAS
AUGUSTO SCARPIN, Fábio et al. História
e Memória: Diálogos e tensões. Editora Intersaberes. Curitiba, 2018.
AZEVEDO, Fernandes et al. Reconstrução
nacional do Brasil – ao povo e ao governo. Manifesto dos Pioneiros da
Educação Nova, 1932.
BLOCH, March. Apologia da História, ZHAR,
2002, on-line, n.p.
CHERVEL, André. História das
Disciplinas Escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria &
Educação.
FARIAS JÚNIOR, José Petrúcio. Ensino
de História: trajetórias de uma de uma disciplina na educação básica.
FONSECA, Thais Nívia de Lima. História & ensino de História Belo
Horizonte: Autêntica, 2015.
FORQUIM, Jean-Claude. Escola e
Cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1993;
FORQUIM, Jean-Claude. Saberes
escolares, imperativos didáticos e dinâmicas sociais. Teoria & Educação,
n. 5, 1992.
G1. Legislação
que exige consentimento sexual entra em vigor na Suécia. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/legislacao-que-exige-consentimento-sexual-entra-em-vigor-na-suecia.ghtml. Acesso em: 01/07/2018
G1. O que
há por trás da alta taxa de estupro na Suécia? Disponível
em: Acesso em: 18/09/2012: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/09/o-que-ha-por-tras-da-alta-taxa-de-estupro-na-suecia.html
MURRAY, Rothbard. Educação:
Livre e Obrigatória. São Paulo: Instituto Ludwing Von Mises Brasil, 2015.
NIZOLAZZI, Fernando. O que são usos políticos do passado. de
acordo com este historiador?, Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/o-que-sao-usos-politicos-do-passado/.
Acesso em: 30/06/2021
VARNHAGEN,
Francisco Adolfo. História Geral do
Brasil. Rio de Janeiro: E. & H. Laemmert, 1877.

Comentários
Postar um comentário